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27 maio 2009





"O que mais me convém é estar só.
Considero realmente esse estado como o ideal.
A minha casa é na verdade uma prisão gigantesca.
Isso agrada-me muito. Na medida do possível, paredes nuas. Nuas e frias. Têm um óptimo efeito no meu trabalho; nos meus livros, as coisas que escrevo são assim, parecidas com a minha casa. Surpreendo-me com frequência a achar que os capítulos de um livro são como as divisões da minha casa. As paredes vivem, não é verdade? E as páginas também, como as paredes. Isso basta. É preciso olhá-las intensamente. Quando se olha uma parede branca, vê-se que não é branca nem fria. Quando se vive muito tempo só e já se está habituado, quando se exerceu a solidão e se está, a bem dizer, instalado nela, descobre-se sempre mais ali onde, por qualquer razão que não importa, não há nada. Distinguem-se minúsculas fissuras na parede, pequenos rebordos, desigualdades, insectos. Há uma actividade monstruosa nas paredes.
Com efeito, as paredes e as páginas são perfeitamente semelhantes.
"

Thomas Bernhard



Fonte: http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/e_sombra/index.asp?op=6&ano=2007&mes=6

26 maio 2009

O que aconteceu ali? - Pedro Mexia - Público

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

O que aconteceu ali? - Pedro Mexia - Público

14 de Março de 1938, tinha Josef Fritzl três anos, os nazis entram na cidadezinha austríaca de Amstetten. São acolhidos apoteoticamente. A anexação era recebida como uma libertação. Segundo o jornalista Allan Hall (autor da biografia Monster, 2008), o pequeno Josef estava entre a multidão, agitando uma suástica de papel, enquanto o pai lhe explicava: "Vêm salvar-nos."
Setenta anos depois, em 2008, Fritzl confessou na cadeia: "Nasci na época nazi, quando havia controlo e respeito e autoridade. Suponho que conservei esses velhos valores ao longo da vida." Talvez possamos chamar a esses "velhos valores" outros nomes: opressão, submissão e terror. E isso não se apaga facilmente, como lembra Hall: "Durante a Segunda Guerra Mundial havia dois subcampos do campo de concentração Mauthasen-Gusen em Amstetten, parte de um complexo onde morreram entre 122.766 e 320.000 pessoas." O polícia que descobriu a infame cave de Fritzl "tinha visto fotos" desses campos, mas afinal "a guerra tinha acabado há 65 anos e ele nunca esperou ver de novo uma coisa daquelas durante o seu giro". "Coisas daquelas faziam parte da História. Não faziam? O que é que tinha acontecido ali?"
O que aconteceu ali? Josef Fritzl parecia um pacato pai de família, um engenheiro electrotécnico reformado e reservado. Hoje conhecemos o seu percurso: abandonado pelo pai, maltratado pela mãe, condenado e preso por violação em 1967, dava tareias de cinto aos seus filhos, visitava clubes de sexo sádico, fazia turismo sexual em Bangecoque, coleccionava livros sobre os jerarcas nazis. É uma dualidade comum em "monstros", mas talvez deva alguma coisa àquela "atmosfera maligna" que o escritor Thomas Bernhard denunciava com veemência: a atmosfera de uma Áustria vergada ao gene nazi, ao catolicismo autoritário e ao conformismo burguês.
O que aconteceu ali? Não percebemos, ninguém percebe, que um pai prenda uma filha numa cave. "Cave" é aliás uma expressão enganadora, porque do que se tratava era de um bunker, como aqueles que havia na guerra. No fim do nazismo, diz-se que havia em Berlim quatro metros de bunker por cada metro de edifícios. E foi esse ambiente que Fritzl recriou, um ambiente secreto de ordem, disciplina, obediência. Atrás de um armário na sua casa estava dissimulada uma porta maciça, e depois umas escadinhas davam para um horrível submundo: sete portas sucessivas, como num conto de Poe, um tecto baixo, corredores estreitos e divisões fétidas, sem janelas, com paredes à prova de som, uma sanita, uma kitchenette, umas camas.
Elisabeth Fritzl viveu nessa masmorra privada entre 28 de Agosto de 1984 e 27 de Abril de 2008. O pai violava-a desde os 11 anos e, quando na adolescência ela fugiu de casa, ele decidiu que era tempo de lhe ensinar os "velhos valores". Contou a toda a gente que Elisabeth se tinha envolvido com uma seita religiosa e tinha desaparecido, forjou uma carta, atraiu a filha para o bunker que andava a construir e manteve-a nesse inferno durante duas décadas e meia. Nos primeiros anos, ela tinha alucinações, gritava, caía no tédio mais insustentável. Depois, engravidou sete vezes do pai. Seis meninos sobreviveram, o sétimo morreu por falta de cuidados apropriados e foi incinerado por Fritzl, sempre fiel à sua mitologia.
A barbárie de Fritzl foi subterrânea. Mas como compreender a barbárie à superfície? Como perceber que sucessivas vistorias não tenham dado com o bunker? Que os vizinhos não tenham estranhado as obras secretas? Que as assistentes sociais tenham acreditado quando apareceram três bebés supostamente deixados à porta dos pais pela desaparecida Elisabeth? Como compreender a incompreensível credulidade de Rosemarie, a mulher de Josef, que ao que parece não sabia de nada? Allan Hall tem toda a razão quando diz: "A nação austríaca tinha finalmente que se confrontar com a sua natureza como sociedade. O caso de Amstetten acentuou o que parecem ser graves falhas na psique de um povo e nas suas estruturas sociais e judiciais, pois todas elas falharam com Elisabeth e os seus filhos, como tinham falhado com outra vítima de encarceramento subterrâneo em 1998 - Natasha Kampusch, a rapariga na cave que sofreu um tormento de oito anos e meio nas mãos do seu raptor." O castigo possível chegou anteontem. Josef Fritzl foi dado como culpado de homicídio por negligência, violação, incesto, coerção e escravatura, e condenado a prisão perpétua num estabelecimento psiquiátrico. Confrontado com um testemunho gravado da filha e com a sua aparição em tribunal, tinha confessado todos os crimes.
É que, se há um monstro nesta história, há também uma figura extraordinária, a estóica e determinada Elisabeth. Quando Elisabeth, com 42 anos, saiu finalmente do bunker para acompanhar o tratamento de uma das suas filhas, os médicos desconfiaram do estado lastimável da adolescente. Elisabeth aproveitou e contou tudo. Contou todos os abusos e violências. Mas também contou que tinha cuidado de seis crianças, que as tinha alimentado, vestido, que lhes tinha dado banho, que tinha brincado com elas e visto televisão com elas, que lhes ensinou gramática e matemática, que as educou e lhes transmitiu a sua fé. Quando os miúdos ainda cativos foram trazidos à luz do dia, o rapaz mais novo apontou para o céu e perguntou aos polícias: "É ali que Deus vive?" E aqueles polícias, que já tinham visto e ouvido tudo, choraram como crianças desoladas.


Fonte: http://verdaditas.blogspot.com/2009/03/o-que-aconteceu-ali-pedro-mexia-publico.html

22 maio 2009

"My Thomas Bernardt obsession"




"Reading Bernhard feels like the children's superstition of holding one's breath in a car while passing a cemetery. He allows his reader no time to breathe, driving home the moments of intense disappointment and disgust, and etching particular phrases or words into the reader's memory.
"
(Jessica Ferri works at Farrar, Straus and Giroux and is the author of the blog Dilettantsia) - UK




Fonte: http://www.moreintelligentlife.com/story/my-thomas-bernhard-obsession

Artigos

A dose diária de ar


A austríaca Elfriede Jelinek, Nobel de Literatura em 2004, escreve sobre seu conterrâneo Thomas Bernhard

ELFRIEDE JELINEK

Creio que foi a experiência muito precoce da doença que aguçou de vez o olhar de Thomas Bernhard /, que o fez ficar obstinadamente onde estava, para que ninguém lhe tomasse o lugar.
“O procedimento é conhecido: tão-logo o doente parte, a gente sadia imediatamente toma seu lugar, isto é, toma posse de seu lugar, e então o doente, que não estava morto, como todos pensavam, retorna e reclama seu lugar de volta, quer retomar posse, o que revolta a gente sadia.”

(…)

Como nenhum outro, esse homem colérico acreditou na sociedade austríaca, assim como o doente desesperado gostaria de estar entre gente sadia, justamente porque ela lhe infunde o sentimento de não pertencer, justamente porque ela o expulsa, horrível legitimação de tudo o que ela mesma é.

Em seu papel de crítico, e de crítico arquetípico, Bernhard confirma, no ímpeto de criticá-la, essa sociedade que há muito se tornou a substância de sua vida.